Pessoas.
Definem o mundo. Falam. Criam. Especulam.
Matam. Transformam.
Mas para mim, não passam de um
passatempo.
Não me dobro ao consumismo, a não
ser por livros, por favor me entenda, ler é uma necessidade, ultrapassa
qualquer barreira, e pelos livros eu gasto todo o meu dinheiro, mas voltando as
pessoas, me pergunto se você se perguntou se sou um cientista, ou até mesmo um serial killer, mas não, esqueça todos
essas caracterizações, sou apenas um ser, vivente, observador. SIM. Essa
palavra me descreve, observador.
Unindo os fatos, consumismo se
liga a grandes shoppings (frutos de desejos megalomaníacos dos homens), e
shoppings lembram pessoas andando, comprando, rindo, chorando, namorando,
olhando, sentando, comendo... Fazendo o infinito.
Agora volte ao meu olhar
perturbado, e imagine, apenas imagine, e claro concorde, hora bolas.
Sento-me numa mesa, estou só,
chamo a atendente e indico o cappuccino do cartaz, ela sorri e diz que trará em
um segundo, agradeço (gosto de gentileza), ela se vai, olho ao meu redor, o
ambiente está lotado, uma cacofonia de sons ultrapassa os meus tímpanos, me
fecho, trabalho apenas com os olhos, me envolvo na loucura de meus pensamentos,
você vai comigo, juntos temos uma visão, ela percorre tudo em câmera lenta,
vendo cada movimento, cada expressão.
Primeiro chamo a atenção para um
homem, ele está sentado, nas mãos um livro, gostei do que vi, ele lê
atentamente, rugas aparecem em sua testa, parece se envolver demais com o
livro, ou apenas está confuso, olho para seus olhos e percebo que estão vagos,
então vejo que ele não está ali, de supetão ele fecha o livro, leva a mão ao
bolso e tira o celular que mostrava na tela o nome: Amor. Mato a charada, essa
foi fácil, homem, mais de quarenta, pode-se ver pelos cabelos brancos, triste,
pois quando atendeu o telefone pareceu
que o mundo desabou em suas costas, provavelmente em processo de separação,
negou a chamada e fez um sinal negativo com a cabeça, logo depois leva as mãos
a cabeça e aperta os cabelo, observo a capa do seu livro: Casamento, uma
batalha. Sim, eu estava certo. Não há nada que eu possa fazer.
Olho ao redor novamente e vejo
que o ambiente esvaziou, meu cappuccino acaba de chegar e eu agradeço novamente
com um sorriso, ela se vai. Fico ali a pensar se alguém faz o mesmo que eu e
percebo que sim, ela está sentada a duas mesas de mim, mas por incrível que
pareça ela sorri, estava me olhando todo esse tempo. Dou um leve sorriso e ela
levanta sua xícara, eu em um ato de cumplicidade levanto a minha.
Perco meu olhar na minha mesa,
estava eu envergonhado? Estranho, me sentia estranho, eu era estranho, sempre
fui. Ninguém nunca me notava. Saio do meu devaneio quando a garçonete simpática
me entrega um bilhete de guardanapo e aponta para a moça da outra mesa, eu olho
e ela está sorrindo.
Leio o bilhete:
Vejo que encontrei alguém como eu, não se sinta estranho, eu também me
senti ao te encontrar, me sinto uma boba falando isso, mas é bom, é bom saber que
não sou sozinha, e que posso convidar você a se juntar a mim nessa tarde,
aceita?
Sim, isso foi estranho, muito.
Mas mesmo assim, senti paz, é como se eu esperasse esse convite.
Peguei uma caneta e escrevi mais.
Podia falar dos bilhetes trocados
até eu finalmente ir a mesa da bela mulher, mas isso levaria tempo de mais e eu
não teria tanta paciência. Sentei com ela e não precisamos falar nada apenas
olhar um para o outro durante algumas horas, perdi a noção do tempo, mas aquilo
valeu a pena, tempo não é ouro, é só areia.
No final das contas nós nos
despedimos e tomamos caminhos diferentes, eu não peguei nada dela a não ser os
bilhetes que guardaria comigo para sempre, nem sua voz eu sabia como era, mas
podia imaginar, doce e melodiosa, pois seu rosto aparentava e seu modo de
escrever também, já disse sou observador. Enfim, não posso me perder, me perco
demais, voltando a despedida.
Cada um foi para um lado, sem
olhar para trás, mas levando na memória aquele momento, depois parei no banco
do shopping e em vez de observar aos outros, observei a mim mesmo. Parei,
pensei e corri, não podia deixar ela escapar.

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