Acordou uma desgraça. Quase não dormiu, na verdade, talvez umas duas horas rápidas no sofá da sala. Olhou muito pro teto, pra janela que dava pro muro, que dava pra rua. Achou ter visto um diabo – diabo mesmo, com carne de homem -, mas era uma árvore deformada pela madrugada. O olhar triste também não ajudava – de vez em quando, quando se desesperava, fazia ver o que não tinha.
Queria ir embora, estar só, ali doía seu coração. Mentira. Queria estar na cama com ele, confundir as pernas, ter os dedos marcando um abraço, se aquecer do ar condicionado potente. Mas como não tinha isso, e agora era verdade, queria ir embora, estar só, ali doía seu coração.
Tem que ter calma, é longe de casa, e está tudo escuro. Não tem dinheiro pra táxi, nem hora pra ônibus, tem que esperar. Ser prudente sem merthiolate, não já tinha passado por isso tantas vezes? Respirar doía, a úlcera não ajudava, queria ir pra casa, estar só, doía tudo.
Viu a luz do sol à espreita, já devia ter ônibus. Vestiu calça, meias, pediu pra abrir o portão, sapatos, deu tchau, “está tudo bem”. Fechou o portão e agradeceu o ar gelado da manhã recém-nascida, respirou melhor. Queria saber o que não estava bem, mas era uma porta com os próprios sentimentos. Quis vomitar quando pensou em si, e quis vomitar por ter querido vomitar quando pensou em si. O coração estava uma merda, e a cabeça, subordinada, já fedia. Naquele sábado de manhã, a sua honey baby era só dor.
Ass: Jorge Pondres
(Texto enviado através da sessão "envie seu texto", disponibilizado em nosso blog.)
Nenhum comentário:
Postar um comentário