quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Primeiras palavras sobre o amor

Primeiras palavras, porque jamais ousei escrever sobre este insólito e indefinível sentimento. Mas acontece que eu estou em um quarto abafado e minúsculo, em uma pensão barata que encontrei enquanto estava na estrada - Sim, eu estou na estrada há algum tempo, buscando algo que nem mesmo sei. Talvez buscando a mim – então me ocorreu que em meio à fumaça nebulosa do cigarro aceso entre meus dedos e as doses de vodca que adoçam o meu café, a minha consciência quase inexistente pudesse finalmente formular uma ideia, uma palavra, um conceito sobre o tal do amor, mas eis que me encontro frustrado outra vez.

Sou um escritor assíduo que não escreve sobre o amor – sabe, aquele amor de homem e mulher - talvez o único desprovido dessa ânsia de descobrir a essência desse sentimento. Uma anomalia em meio a uma sociedade tão dependente de informações sobre esse assunto que de tão comentado, tornou-se banal; Vulgar. Qualquer pessoa entende o amor hoje em dia. De suas próprias maneiras. Elas encontram o amor no corpo de alguém, apenas para depois reencontrá-lo em outra boca, e depois em outras coxas, e depois em outros lábios. 

Que volátil então, esse tal do amor.

Tenho é pena dos coitados que pensam entendê-lo.

Por isso mesmo eu não me pressiono. Eu sou um escritor que escreve sobre os próprios fascínios, e, cá entre nós, desde quando o amor ainda desperta algum interesse? Então eu direciono a minha atenção para as pessoas. São sobre elas que eu escrevo. Porque a grande verdade é que eu aprecio essas pessoas loucas, cujas personalidades estranhas e imprevisíveis me fascinam. Estas que não hesitam em perde-se em um pôr do sol qualquer; e que buscam no brilho ofuscante uma centelha de perspectiva que não se desvanece, nem se apaga, ainda quando o sol e toda a sua magnitude definham no horizonte inalcançável. 

Essas pessoas mudarão o mundo, mas ninguém está realmente percebendo, pois estão ocupados demais buscando o amor e tentando entende-lo. Ainda não entenderam que estão perdendo tempo.

Isso me revolta. Só não revolta mais porque no momento minha atenção desviou-se para a percepção de que não há mais vodca. Estou sentindo a sobriedade beirando o meu ser, tentando afastar-me da deliciosa embriaguez, então, caros amigos, preciso parar, pois em meu escasso conhecimento sobre o amor, apenas um estranho fator parece tangível: Ele não combina com sobriedade. 

Essas foram minhas primeiras palavras sobre o amor. Foram as últimas também. 

Ass: Kleane Souza

(Texto enviado através da sessão "envie seu texto", disponibilizado em nosso blog.)

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