Eles
estavam quietos, em silêncio. Há muito tempo nenhuma palavra era dita. Porém,
aquele silêncio fazia um barulho ensurdecedor que incomodava à ambos na mesma
intensidade. Ela sentiu um desconforto totalmente desnecessário e, finalmente,
resolveu interromper a barulheira silenciosa com uma de suas palavras clichês
de afeto que, agora, pouco soavam sinceras se direcionadas a ele. Na verdade,
não soariam sinceras se direcionadas a ninguém. Sua cota de decepções já havia
sido preenchida para que ela se permitisse sentir esse afeto outra vez. Na sua
cabeça, seus sentimentos já tinham sido masculinizados o suficiente para que
esse afeto fosse ao menos idealizado. Não disseram mais nada. Ela levantou-se e, sem ao menos olhar pra trás, deixou em cima da mesa um bilhete que havia escrito em um de seus devaneios noturnos. Ele pegou o bilhete. Hesitou em abrir o papel, mas o fez.
Se hoje existe um abismo entre nós, não fui eu quem cavei o buraco. Isso me dá ânimo, ao mesmo tempo em que me desgasta, porque sei que diminuir a distância entre nós não é uma decisão que cabe a mim.
Chorou.
Foi a última vez em que se viram.

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