sábado, 2 de fevereiro de 2013

1 tragédia. 3 pontos de vista.




#1

Segunda, 28 de Janeiro de 2013. 2 e 45 da manhã.

‘’Acabo de entrar no quarto de hotel.
A sensação depois de o dia inteiro cobrindo uma tragédia desse porte é de uma mistura duvidosa entre tensão e esperança, o clima é pesado, as pessoas choram e se debruçam em desespero, mas essa é a minha chance de brilhar e esses detalhes não vão me atrapalhar. Por anos me vi cobrindo coisas sem importância como campeonatos de futebol, festas populares e vez ou outra certa atenção me era dada em todo o Estado graças a algum ladrão e ou político corrupto que vinha parar em Santa Maria.
Não sou nem daqui de fato. Nasci em São Paulo e o destino quis que eu acabasse viajando entre os Estados do sul do Brasil de bico em bico até parar numa filial da maior empresa de telecomunicações do país bem aqui, cobrindo coisas ‘empolgantes’ no interior do Rio Grande do Sul. Mas isso fora até ontem à noite.
Eu estava de folga, tomando um pouco de pinga com colegas de trabalho, quando uma fumaça forte surgiu na noite, o cheiro de queimado e uma sirene surgindo, pulei da cadeira e torci para que fosse algo grande e era!
Um incêndio.
- A Kiss está pegando fogo. – Ouvi alguém gritar.
Entrei na nossa van e chamei um dos cinegrafistas que estavam no bar comigo, voamos até á porta de um verdadeiro inferno com todo tipo de pessoa ao redor, desesperadas, desanimadas, em choque, queimadas e bem, eu era o primeiro repórter a chegar naquele caos, fizemos uma chamada de vídeo e a enviamos, hoje em dia ter o seu equipamento por perto faz de você um homem de sucesso.
Logo o Brasil todo estaria prestando atenção em mim.

O dia passou e eu fiquei encarregado de toda a cobertura do que agora chamam de ‘’tragédia de Santa Maria’’, como o meu trabalho pede fui atrás de tudo que poderia chamar atenção das pessoas, palavras dos bombeiros, jovens que sobreviveram, famílias que estavam sofrendo a perda de um parente, pouco me importava como eu conseguiria isso, eu apenas fui atrás até conseguir.
Entrevistei pais desesperados que de tão tristes mal pareciam notar o meu microfone, apenas emitiam sons chorosos e se agarravam aos caixões de seus filhos, ou seja outro puro para o sensacionalismo. O que? Me processe por estar fazendo o meu trabalho...

-Todos vão se emocionar com as nossas imagens cara! – Animado eu dizia para meu colega cinegrafista durante o almoço.

No fim do dia, recebi a ligação do meu chefe, com a noticia de que todo o meu material seria usado no horário nobre em nosso canal, para todo o Brasil ver e rever!

- Quero tudo o mais trágico possível garoto, faça-os chorar até sangrar!
 Agora eu me preparo para uma semana de cobertura, na verdade, se Deus quiser, isso ainda vai durar muito tempo.
Tenho muito que fazer e pouco tempo para descansar por tanto ligo o rádio para conseguir um pouco de motivação.

Uma música norte americana branda seu forte refrão:

-Tonight, we are young!

Dou um gole na pinga que comprei antes de subir e volto ao trabalho, o Brasil precisa de mim. ’’

#2

Domingo, 27 de Janeiro de 2013. 22 horas.

‘’Meu facebook está bombando!
Dou risada de cada pessoa que se incomoda em vir me dar algum tipo de lição de moral, só por que eu dei minha opinião, afinal não sou nenhum hipócrita alienado, nem muito menos infiel com as minhas crenças.
Como Nordestino, sou superior ao que as mídias sociais querem pregar, não vou me comover com a miséria de pessoas que me consideram menor que elas, quantas tragédias o Nordeste carrega? Muitas, eu respondo em alto e brando som.
Nunca ouve tanta comoção, nem pelos próprios nordestinos, mas isso não é nenhuma surpresa, vivemos dentro do pais em que o que importa de fato é o carnaval, o futebol, o BBB e qualquer outra coisa que a televisão nos faça engolir!
Mas eu sou diferente, não vou cair nessa! Essa besteirada toda não chega nem aos pés da trágica situação do sertão nordestino, ou da fome na Somália, ou da crise econômica na Europa e as pessoas perdem todo o seu tempo compartilhando essas coisas sobre um incêndio qualquer? Não me perturbem! Nem a mim nem a Deus, pois sei que o meu Senhor já não podia fazer nada quanto àqueles jovens, eles fizeram sua escolha: o mundo.
Quando falo nisso fico de fato um pouco triste, eles nunca encontrarão o caminho de Deus, mas isso passa logo, a hipocrisia das pessoas na minha timeline me faz esquecer esse sentimento.

Um babaca até escreveu um grande texto sobre mim, haha, pobre coitado. Li poucas coisas e não acho que ele fez sentido algum, na verdade, sendo bem franco mesmo, não entendi o que ele escreveu, muitas letras me deixam confuso!
Vou chama-lo de hipócrita e logo ele vai parar de me encher o saco! Pronto chamei, agora eu vou desligar essa porcaria de computador, deixarei todos esses falsos nordestinos moralistas manipulados com suas palavrinhas de amor e bondade pra lá, eles não vão pagar minhas contas, a vida segue.
Antes de ir dormir tenho que reclamar com a vizinha, ela fica escutando essas músicas terríveis em inglês, coisas que o meu ouvido não são obrigados a escutar em horas normais, muito menos a essa hora da noite. Juro que se tiver que escutar mais uma vez esse refrão eu causarei a próxima grande tragédia nacional!

Antes de bater na porta o maldito refrão toca de novo.


-Tonight, we are young!

Quer saber? Vou chamar a polícia!’’


#3

Domingo, 27 de Janeiro de 2013. 23 horas.

‘‘Dá pra acreditar nessa gente?
Uma enorme tragédia, várias pessoas mortas e tudo que parece importar para eles são seus valores distorcidos e seus preconceitos obscuros, triste demais.
A internet vira um caos causado por palavras de ódio, de pouca compaixão e de pouca humanidade, coisas como ‘’estão queimando no inferno por que negaram a Deus’’ ou ‘’foda-se esse povo do Sul, eu sou Nordestino e não me importo com eles’’ chegam a quase tirar meu sono. Quase não, tiram meu sono.
Minha indignação é tanta que eu acabei entrando em discussões intensas com radicais religiosos, falsos moralistas, regionalistas que se dizem ‘’nordestinos superiores’’ por boa parte da noite, esquecendo até de ir dormir. A aula amanhã ia ser como sempre densa e pesada, mas sem resposta essas pessoas não iam ficar.

E não ficaram.
Pena que pra esse tipo de mente fechada, palavras são como pedras, elas machucam e quanto mais você as joga mais raiva eles sentem pela dor. Depois de uma hora e meia discutindo, eu decidi me desligar e ir enfim dormir.
Antes disso faço uma oração, mesmo não sendo do tipo religioso, peço do meu jeito para que Deus guarde todos os envolvidos nesse acidente e por todos que agora sofrem no mundo, da Etiópia ao Alaska, provavelmente aqueles radicais me chamariam de hipócrita agora, por fim agradeço pela minha vida, pela vida dos que eu amo e dos que eu ainda vou amar e me sinto mais tranquilo apesar disso, não cosigo dormir.
Fico imaginando os planos de cada um naquela boate, o que eles queriam fazer no dia seguinte, algum arrependimento, alguma história de amor mal resolvida, um trabalho para entregar ou uma prova que se aproximava tudo se foi, rápido, como fumaça.

Aquilo me comove de um jeito inexplicável, talvez por ser jovem como eles, talvez por ir a festas como a que eles estavam talvez por ser universitário ou por ser um jovem sonhador como a maioria provavelmente o fora, não sei.
Olho para o lado, meu mp4 estava ao alcance da mão, musica sempre acalma nas piores horas.
Ligo e mesmo sem os óculos para saber qual música vou escutar eu aperto o play.
A música da banda Fun toca bem baixinho nos meus ouvidos e o seu refrão me faz sorrir um pouco.

-Tonight, we are young!

E por alguma razão eu enfim pego num sono tranquilo, agradecendo mais uma vez por estar vivo. ’’


Acima do sensacionalismo, do radicalismo, do regionalismo, da alienação, da hipocrisia, da mídia social, dos seus preconceitos, das suas crenças, dos seus preconceitos, de suas generalizações, do seu lucro, do seu emprego, do seu sucesso, acima disso tudo, está a essência humana. Esta essência faz de mim, de você, dos protestantes, dos católicos, dos espiritas, dos etiôpes, dos europeus, dos sulistas, dos nordestinos, dos judeus, dos arabes uma coisa só: semelhantes.
Por isso tragédias doem tanto.

Esse texto nada mais é do que um desabafo, um protesto, uma crítica e um pedido.

Respeitem essa essência.

Por hoje é só pessoal.

Um comentário: